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Ontem:


Desocupados:

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Parte II

Depois de sair da escola, fui direto pra casa preparar a aula do dia seguinte, já pensando em desis...

Opa, nada disso! Eu sou uma pereirinha! HAHAHA ("piada" interna para a minha amiga Tal, pistoleira barata, que fez 32 anos dia 24).

Sim, mas... Como a Globo me fez acreditar que eu sou brasileira e não desisto nunca, eu respirei fundo no dia seguinte pra dar o segundo dia de aula. Na bolsa, além da sombrinha e do celular, iam um livro de História, um soco inglês e um spray de pimenta. Só pra garantir. Eu tava mais calma, afinal, depois do dia anterior, o que viesse seria lucro.

Admito que esse dia foi bem melhor. Dei a primeira aula do dia e, quando o sinal tocou, duas alunas vieram conversar comigo.

- Professora, a senhora é de onde?
- De Campina Grande.
- Nossa, a senhora nem parece ser daqui!

Lembram daquele filme ET? É, eu também lembrei dele. E outra, A SENHORA? Esses jovens de hoje em dia não respeitam mais ninguém! No meu tempo eu teria dado umas boas palmadas! Bom, depois eu voltei pra sala.

Na aula seguinte, entrou um daqueles caras que representam tal escola de informática trazendo algum desconto babaca pra aulas de computação. "Com este panfleto você irá ganhar um desconto de 10% no curso de digitação". Como meus alunos eram muito educados e decentes, ficavam o tempo inteiro tentando atrapalhar o que o cara tinha a dizer perguntando coisas sem sentido. Aliás, igual como eles fazem na aula.

A encarnação de Satanás, que na aula passada perguntou se podia me chamar de Lu, ficava interrompendo o pobre coitado. Hora de eu entrar em ação! No dia anterior eu teria mandando ela calar a boca, teria me estressado. Mas naquele dia eu me limitei a olhar pros olhinhos dela e fazer uma cara de "mais um pio e eu arranco seu clitóris com um alicate". E ela se calou. Foi lindo.

E mais ou menos assim se seguiu o restante das aulas. Agora percebo que deveria me sentir mal pelo futuro deles, não pelo meu. De qualquer forma, o que está feito, está feito (adoro essas frases que não querem dizer nada).

Agora, só pra finalizar, queria comentar sobre um comentário do último post:

"Enfim, realmente não entendo o porque de passar 4 anos estudando para ser professora! Muito menos de história!"

Espero que isso tenha sido um comentário irônico.


Postado por: Circo sem Futuro
Hora: 5:05:05 PM

Sua última chance:



~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~



Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

I Parte

Peço perdão aos que inutilmente passaram seis meses entrando aqui à procura de atualizações, mas eu precisei desse tempo pra vagabundar calmamente sem pressões de nenhum tipo. Mas agora vou começar a explicar o que aconteceu pra que eu passasse todo esse tempo desaparecida do Circo que vos acolhe.

Ano passado, pelos idos de outubro, eu passei pela experiência mais traumática e, ao mesmo tempo, mais encantadora da minha vida: dei aula numa escola. Sim, porque por algum motivo eu estou há quatro anos estudando pra ser professora (de História). Passei quatro anos idealizando minha primeira aula, o rosto dos meus alunos, minhas técnicas de ensino e as torturas que aplicaria aos alunos desinteressados.

Na verdade, as aulas faziam parte de um estágio de apenas 20h/aula em alguma escola pública. O negócio era simples, duas semanas na escola, relatório final à universidade e diploma na mão. Mas não foi tão fácil. Não. Nunca é. Olha o nome do blog!

O colégio escolhido ficava a 5min da Universidade. Quando entrei, lembrei do Carandiru. Encontrei pessoas (as crianças) que falavam mais palavrão do que eu. Escutei um que me deixou vermelha, eu não sabia o que era, mas era parente da xoxota.

O professor, adepto da campanha JK (50 anos em 5), era uma alma acabada e desgastada pelo trabalho. No primeiro contato, na sala dos professores, entra uma professora evangélica e louca que desabafa: "Olhe, quando eu vejo esses meninos, eu tenho vontade de apertar assim (faz o gesto) o pescoço deles ateeeeeeé (fica vermelha) estrangular!" (se recompõe). Calma, Luci, calma, isso não quer dizer nada.

- Então, professor, eu gostaria de ficar com o 7º ano...
- Ah, minha filha, você vai ficar com a pior turma da escola, o 7ª B!
- Glump...
- Camila!
- Camila?
- Camila!
- Mas qu...
- CAMILA! Camila é o CÃO! Eu já fui parar no hospital por causa dela! Blá blá blá...

Então ele me dá o nome de pelo menos cinco alunos que me causariam e dor e sofrimento. Eu não os anoto. Quero esquecer. Na saída, uma encantadora criança surdo-muda tenta comunicar-se comigo e com uma amiga minha (que também daria aula lá). Passo duas horas tentando entender o que aquela porra tá dizendo, sem sucesso. Em casa, preparo com carinho as aulas, procuro introduzir piadas espirituosas. O mundo é bonito.

Chega o Dia D. Tentando disfarçar o pânico, procuro permanecer séria quando entro no colégio. Espero o sinal no pátio. As crianças me encaram, não têm medo de mim. O garotinho surdo-mudo se aproxima e diz "boa tarde!"

- Ouxe, menino?! Tu num era mudo?!
- Era!

Filho duma puta! O guri falava mais que Galvão Bueno! Ghrrr! Mas enfim, o sinal logo tocou e eu fui calma e firmemente andando pra sala enquanto 50 crianças tentavam me derrubar. 7ª A: crianças desnutridas com 1,30m de altura. Foi então que eu escutei: "professora!" De primeiro eu não dei importância. Depois entendi, era comigo! Eu era a professora! Que emoção! Eu consigo enganar!

- Professora, posso beber água?
- Não.
- Ir no banheiro?
- Não.
- Mas...
- Não.

Eu estava embriagada pelo poder. (Mas que poder?) Hoje eu percebo que só consegui ministrar aquela primeira aula porque os guris estavam completamente abestalhados pelo fato de haver uma professora nova. Lembro que alguém desabafou: "o professor chama a gente de mizera!" E viva o ensino público!

Depois de 45min, o sinal bate, hora de ir ao famigerado 7º B. Na sala ninguém me ouve, ninguém me olha, ninguém se anima. 35 adolescentes desnutridos com 1,70m de altura. O que não tinha um dente da frente sentou de costas. A de tranças cochichava com a amiga enquanto me olhava e ria. Eu queria sair dali.

- Meu nome é Luciola, eu sou uma estag...
- Professora!
- Sim?
- Posso te chamar de Lu?
- Minha filha, você pode me chamar de qualquer coisa, menos de puta.

(Suspiro profundo).

Naquela hora, enquanto eu tentava acreditar no que eu tinha falado, eu soube que eu só poderia dar aula pra adultos. Adultos com um senso de humor bizarro. "'Menos de puta'?! Caralho, Luciola, tu num tá em casa, puta que pariu, a menina vai ficar chocada..."

A menina cagou de rir, disse algum palavrão e se calou satisfeita. Eu tava no meio de um bando de delinqüente maluco. Eu queria minha mãe. Eu levava tanto tempo pra acalmar os alunos e trazê-los para dentro da sala que a aula não durava 10min. "Normal", dizia o professor.

Volto pro 7º A, terceira e última aula do dia. No pós-intervalo, a sala estava mergulhada no caos. Criança correndo, gritando, pendurada na janela. Me exaltei, ameacei de morte, fiz terrorismo. Nada.

- Professora, coloca os bagunceiros pra fora!
- Se eu fizer isso sai até você, meu filho.

O espertinho se cala. Eu fecho o livro, apago o quadro e abandono a sala. Ao sair da escola eu desabo no choro, repenso nos meus quatro últimos anos e nos 50 anos futuros e choro mais.


Postado por: Circo sem Futuro
Hora: 11:29:31 AM

Sua última chance:



~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~



Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Parte II

Depois de sair da escola, fui direto pra casa preparar a aula do dia seguinte, já pensando em desis...

Opa, nada disso! Eu sou uma pereirinha! HAHAHA ("piada" interna para a minha amiga Tal, pistoleira barata, que fez 32 anos dia 24).

Sim, mas... Como a Globo me fez acreditar que eu sou brasileira e não desisto nunca, eu respirei fundo no dia seguinte pra dar o segundo dia de aula. Na bolsa, além da sombrinha e do celular, iam um livro de História, um soco inglês e um spray de pimenta. Só pra garantir. Eu tava mais calma, afinal, depois do dia anterior, o que viesse seria lucro.

Admito que esse dia foi bem melhor. Dei a primeira aula do dia e, quando o sinal tocou, duas alunas vieram conversar comigo.

- Professora, a senhora é de onde?
- De Campina Grande.
- Nossa, a senhora nem parece ser daqui!

Lembram daquele filme ET? É, eu também lembrei dele. E outra, A SENHORA? Esses jovens de hoje em dia não respeitam mais ninguém! No meu tempo eu teria dado umas boas palmadas! Bom, depois eu voltei pra sala.

Na aula seguinte, entrou um daqueles caras que representam tal escola de informática trazendo algum desconto babaca pra aulas de computação. "Com este panfleto você irá ganhar um desconto de 10% no curso de digitação". Como meus alunos eram muito educados e decentes, ficavam o tempo inteiro tentando atrapalhar o que o cara tinha a dizer perguntando coisas sem sentido. Aliás, igual como eles fazem na aula.

A encarnação de Satanás, que na aula passada perguntou se podia me chamar de Lu, ficava interrompendo o pobre coitado. Hora de eu entrar em ação! No dia anterior eu teria mandando ela calar a boca, teria me estressado. Mas naquele dia eu me limitei a olhar pros olhinhos dela e fazer uma cara de "mais um pio e eu arranco seu clitóris com um alicate". E ela se calou. Foi lindo.

E mais ou menos assim se seguiu o restante das aulas. Agora percebo que deveria me sentir mal pelo futuro deles, não pelo meu. De qualquer forma, o que está feito, está feito (adoro essas frases que não querem dizer nada).

Agora, só pra finalizar, queria comentar sobre um comentário do último post:

"Enfim, realmente não entendo o porque de passar 4 anos estudando para ser professora! Muito menos de história!"

Espero que isso tenha sido um comentário irônico.


Postado por: Circo sem Futuro
Hora: 5:05:05 PM

Sua última chance:



~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~



Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

I Parte

Peço perdão aos que inutilmente passaram seis meses entrando aqui à procura de atualizações, mas eu precisei desse tempo pra vagabundar calmamente sem pressões de nenhum tipo. Mas agora vou começar a explicar o que aconteceu pra que eu passasse todo esse tempo desaparecida do Circo que vos acolhe.

Ano passado, pelos idos de outubro, eu passei pela experiência mais traumática e, ao mesmo tempo, mais encantadora da minha vida: dei aula numa escola. Sim, porque por algum motivo eu estou há quatro anos estudando pra ser professora (de História). Passei quatro anos idealizando minha primeira aula, o rosto dos meus alunos, minhas técnicas de ensino e as torturas que aplicaria aos alunos desinteressados.

Na verdade, as aulas faziam parte de um estágio de apenas 20h/aula em alguma escola pública. O negócio era simples, duas semanas na escola, relatório final à universidade e diploma na mão. Mas não foi tão fácil. Não. Nunca é. Olha o nome do blog!

O colégio escolhido ficava a 5min da Universidade. Quando entrei, lembrei do Carandiru. Encontrei pessoas (as crianças) que falavam mais palavrão do que eu. Escutei um que me deixou vermelha, eu não sabia o que era, mas era parente da xoxota.

O professor, adepto da campanha JK (50 anos em 5), era uma alma acabada e desgastada pelo trabalho. No primeiro contato, na sala dos professores, entra uma professora evangélica e louca que desabafa: "Olhe, quando eu vejo esses meninos, eu tenho vontade de apertar assim (faz o gesto) o pescoço deles ateeeeeeé (fica vermelha) estrangular!" (se recompõe). Calma, Luci, calma, isso não quer dizer nada.

- Então, professor, eu gostaria de ficar com o 7º ano...
- Ah, minha filha, você vai ficar com a pior turma da escola, o 7ª B!
- Glump...
- Camila!
- Camila?
- Camila!
- Mas qu...
- CAMILA! Camila é o CÃO! Eu já fui parar no hospital por causa dela! Blá blá blá...

Então ele me dá o nome de pelo menos cinco alunos que me causariam e dor e sofrimento. Eu não os anoto. Quero esquecer. Na saída, uma encantadora criança surdo-muda tenta comunicar-se comigo e com uma amiga minha (que também daria aula lá). Passo duas horas tentando entender o que aquela porra tá dizendo, sem sucesso. Em casa, preparo com carinho as aulas, procuro introduzir piadas espirituosas. O mundo é bonito.

Chega o Dia D. Tentando disfarçar o pânico, procuro permanecer séria quando entro no colégio. Espero o sinal no pátio. As crianças me encaram, não têm medo de mim. O garotinho surdo-mudo se aproxima e diz "boa tarde!"

- Ouxe, menino?! Tu num era mudo?!
- Era!

Filho duma puta! O guri falava mais que Galvão Bueno! Ghrrr! Mas enfim, o sinal logo tocou e eu fui calma e firmemente andando pra sala enquanto 50 crianças tentavam me derrubar. 7ª A: crianças desnutridas com 1,30m de altura. Foi então que eu escutei: "professora!" De primeiro eu não dei importância. Depois entendi, era comigo! Eu era a professora! Que emoção! Eu consigo enganar!

- Professora, posso beber água?
- Não.
- Ir no banheiro?
- Não.
- Mas...
- Não.

Eu estava embriagada pelo poder. (Mas que poder?) Hoje eu percebo que só consegui ministrar aquela primeira aula porque os guris estavam completamente abestalhados pelo fato de haver uma professora nova. Lembro que alguém desabafou: "o professor chama a gente de mizera!" E viva o ensino público!

Depois de 45min, o sinal bate, hora de ir ao famigerado 7º B. Na sala ninguém me ouve, ninguém me olha, ninguém se anima. 35 adolescentes desnutridos com 1,70m de altura. O que não tinha um dente da frente sentou de costas. A de tranças cochichava com a amiga enquanto me olhava e ria. Eu queria sair dali.

- Meu nome é Luciola, eu sou uma estag...
- Professora!
- Sim?
- Posso te chamar de Lu?
- Minha filha, você pode me chamar de qualquer coisa, menos de puta.

(Suspiro profundo).

Naquela hora, enquanto eu tentava acreditar no que eu tinha falado, eu soube que eu só poderia dar aula pra adultos. Adultos com um senso de humor bizarro. "'Menos de puta'?! Caralho, Luciola, tu num tá em casa, puta que pariu, a menina vai ficar chocada..."

A menina cagou de rir, disse algum palavrão e se calou satisfeita. Eu tava no meio de um bando de delinqüente maluco. Eu queria minha mãe. Eu levava tanto tempo pra acalmar os alunos e trazê-los para dentro da sala que a aula não durava 10min. "Normal", dizia o professor.

Volto pro 7º A, terceira e última aula do dia. No pós-intervalo, a sala estava mergulhada no caos. Criança correndo, gritando, pendurada na janela. Me exaltei, ameacei de morte, fiz terrorismo. Nada.

- Professora, coloca os bagunceiros pra fora!
- Se eu fizer isso sai até você, meu filho.

O espertinho se cala. Eu fecho o livro, apago o quadro e abandono a sala. Ao sair da escola eu desabo no choro, repenso nos meus quatro últimos anos e nos 50 anos futuros e choro mais.


Postado por: Circo sem Futuro
Hora: 11:29:31 AM

Sua última chance:



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