• elias f
• skopein
• gatochy
• camilo martí
• freeakomics
• carol queiroz
• louca da casa
• sei não, maga
• o elemento fogo
• conselhos da iaiá
• dentro do coletivo
• outro blog da mary
• níquel
• eu ovo
• banksy
• texticulos
• malvados
• HTFriends
• pimpinelas
• som barato
• carapuceiro
• lata mágica
• 360° grauss
• linha do trem
• blog da santa
• big bad music
• making fiends
• feijão tropeiro
• new gambrinus
• jacaré banguela
• clube da malfada
18 de maio de 2007, sexta-feira
Ah, dias caóticos! Sempre que eu ultrapasso os portões da Universidade, eu perco o controle sobre minha vida. São horas de tensão em que fico a esperar pelo próximo biruta que vai fazer alguma coisa na minha vida parecer infame.
Maria não tem mais me perturbado (não, ela não morreu) e é maravilhoso dizer essa frase sem acordar depois. Mas como alegria de estagiário dura pouco...
Hoje de manhã no estágio, depois do fim do meu intervalo de dois segundos e meio para o lanche, eu retorno para meu cativeiro e volto a trabalhar. Noto, através da janela de vidro, na sala ao lado, dois garotos de jornalismo (que insistiam em falar e agir como garotas) conversando com Laura sobre algo que os meus perturbados ouvidos não captaram.
Com o canto do olho noto que, da outra sala, um deles me observa com atenção; viro o rosto impaciente e me deparo com uma criatura pronta para tirar uma foto minha. Meu olhos devem ter saído esbugalhados na foto tamanho o susto que tive, me senti um animalzinho sendo capitado no seu habitat natural. Mas é isso, não tenho domínio nem mesmo sobre a minha própria imagem.
Tive uma súbita vontade de torturar alguém.
Passos vinham em minha direção. As moças, quer dizer, as comadres, quer dizer, os alunos entraram pela sala e se aproximaram de mim. Um com a câmera e o outro com um bloquinho de notas na mão. Este:
- Oi... qual teu nome?
- Luciola.
- Lucioooola de queee?
- Regina.
- Regina tipo R-E-G-I-N-A?
- Não. Regina tipo W-F-X-B-Z-Y.
Fiquei imaginando a professora tentando alfabetizar esse menino, tive pena dela.
- Escrevam CA-SA.
- Gato?
- Casa.
- Gato?
- Casa, caralho.
Mas eu continuei trabalhando, impassível. Tentei parecer o mais ocupada possível e mexer em vários papéis com ar sério e concentrado para que eles tirassem alguma foto decente de alguma pessoa decente. Hihi. Mas aí o rapazote disse "posso te pedir um favor?"
[Minutos de tensão]
- Sim...?
- Tu fica olhando pra esse papel que tá aí do lado pra eu poder tirar uma foto legal?
O papel tava em branco. O máximo que ele ia conseguir era me deixar com cara de autista. Mas eu fiz, né...
Tentei descontrair perguntando "vocês conhecem Kaline? Kaline Maria?" Por que, Luciola? Por que você foi perguntar isso? O menino deu um piti que achei em que ele fosse quebrar a máquina na minha cabeça. "Todo mundo pergunta por essa menina!" Não, ele não tinha raiva de Kaline, ele é apenas uma pessoa alterada. Depois ele se acalmou e disse que conhecia.
Rezei fervorosamente para que eles fossem logo embora e essa foi a única coisa que deu certo no dia. Foram explorar a bibliotecária na sala ao lado e, quando passaram por mim para irem embora, disseram "xau, pessoa". PESSOA! PES-SOA! Meu irmão, eu tive vontade de pegar aquele cara pelo cabelo escovado dele e meter no chão até ele dizer meu nome de trás pra frente e de frente pra trás. Mas eu não fiz isso. Eu disse "xau..."
~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~
Diário de um detento
14 de maio de 2007
Aqui estou, mais um dia. Sob o olhar sanguinário do vigia. Seis da manhã: o despertador sacode meu cérebro. Acordo idiota e um filme de terror sobre o que terei de fazer durante o dia se passa rapidamente pela minha cabeça e a angústia me domina: é segunda-feira.
No ônibus, uma senhora que devia estar bêbada se desequilibra com o freio dele e vem desgovernada em minha direção. Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK. A mulher parecia um pirocóptero. Prevendo a tragédia, eu cedo meu lugar a ela: "venha, sente aqui logo antes que a senhora mate alguém". Mas, antes que eu pudesse me levantar, ela senta nos meus pulmões. Ótimo! Metralhadora alemã ou de Israel. Estraçalha ladrão que nem papel.
Depois eu consegui um lugar na janela ao lado de uma outra velhinha que parecia um passarinho. Essa usava boné de palha e tênis. Eu não gosto dessas velhinhas de tênis, elas são tão elétricas e ágeis e saudáveis! Isso é contra as leis da natureza.
Essa, no caso, parecia ter DDA, não sentou a bunda um só momento na cadeira, e, quanto mais o ônibus enchia, mais ela se aproximava de mim. Na muralha, em pé, mais um cidadão José. Servindo o Estado, um PM bom. Olhava ameaçadoramente e chegava mais perto, olhava e chegava mais perto.
O detalhe é que a velha estava pregando de suor (isso explicava o tênis) e teimava em se encostar em mim. Quando vi, eu já tava pendurada pra fora do ônibus e velha se chegando. Sinceramente, eu não sei como agir com esse povo. Como é que um ser de 70 anos e 23kg me pressiona dessa forma! Vários tentaram fugir, eu também quero. Mas de um a cem, a minha chance é zero.
Finalmente cheguei na universidade. Apesar da minha moral em baixa, eu estava cantando e andando alegremente, parecia uma princesa de filme da Disney na floresta. De repente, eu não sei como, onde e nem porquê, eu tropeço violentamente em algo e passo uns 20 min tentando me equilibrar novamente.
Quando fui ver, eu simplesmente tinha tropeçado em um fio que estava pregado à parede! Sim, eu tropecei em algo que estava numa parede. O alcance das minhas pernas é realmente fantástico. O fio machucou meu pé, abriu uma ferida, parecia as chagas de Cristo. Será que Deus ouviu minha oração? Será que o juiz aceitou a apelação? Com essa onda de canonizações que anda rolando pelo Brasil... Me senti iluminada. Ah, caiu uns cupins em mim também, cada vez que eu sacudia o cabelo caia uns cinco no meu colo.
Foi assim, com o pulmão danificado, melada de suor de passarinho, com uma família de cupim no meu cabelo e o pé semi-aberto por causa de um tropeção, que começo minha semana. Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
14 de maio de 2007,
Diário de um detento
~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~
Sim, sim, pretendo atualizar algum dia.
Mas por enquanto a vida acadêmica me consome.
Um abraço aos esperançosos.
~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~
18 de maio de 2007, sexta-feira
Ah, dias caóticos! Sempre que eu ultrapasso os portões da Universidade, eu perco o controle sobre minha vida. São horas de tensão em que fico a esperar pelo próximo biruta que vai fazer alguma coisa na minha vida parecer infame.
Maria não tem mais me perturbado (não, ela não morreu) e é maravilhoso dizer essa frase sem acordar depois. Mas como alegria de estagiário dura pouco...
Hoje de manhã no estágio, depois do fim do meu intervalo de dois segundos e meio para o lanche, eu retorno para meu cativeiro e volto a trabalhar. Noto, através da janela de vidro, na sala ao lado, dois garotos de jornalismo (que insistiam em falar e agir como garotas) conversando com Laura sobre algo que os meus perturbados ouvidos não captaram.
Com o canto do olho noto que, da outra sala, um deles me observa com atenção; viro o rosto impaciente e me deparo com uma criatura pronta para tirar uma foto minha. Meu olhos devem ter saído esbugalhados na foto tamanho o susto que tive, me senti um animalzinho sendo capitado no seu habitat natural. Mas é isso, não tenho domínio nem mesmo sobre a minha própria imagem.
Tive uma súbita vontade de torturar alguém.
Passos vinham em minha direção. As moças, quer dizer, as comadres, quer dizer, os alunos entraram pela sala e se aproximaram de mim. Um com a câmera e o outro com um bloquinho de notas na mão. Este:
- Oi... qual teu nome?
- Luciola.
- Lucioooola de queee?
- Regina.
- Regina tipo R-E-G-I-N-A?
- Não. Regina tipo W-F-X-B-Z-Y.
Fiquei imaginando a professora tentando alfabetizar esse menino, tive pena dela.
- Escrevam CA-SA.
- Gato?
- Casa.
- Gato?
- Casa, caralho.
Mas eu continuei trabalhando, impassível. Tentei parecer o mais ocupada possível e mexer em vários papéis com ar sério e concentrado para que eles tirassem alguma foto decente de alguma pessoa decente. Hihi. Mas aí o rapazote disse "posso te pedir um favor?"
[Minutos de tensão]
- Sim...?
- Tu fica olhando pra esse papel que tá aí do lado pra eu poder tirar uma foto legal?
O papel tava em branco. O máximo que ele ia conseguir era me deixar com cara de autista. Mas eu fiz, né...
Tentei descontrair perguntando "vocês conhecem Kaline? Kaline Maria?" Por que, Luciola? Por que você foi perguntar isso? O menino deu um piti que achei em que ele fosse quebrar a máquina na minha cabeça. "Todo mundo pergunta por essa menina!" Não, ele não tinha raiva de Kaline, ele é apenas uma pessoa alterada. Depois ele se acalmou e disse que conhecia.
Rezei fervorosamente para que eles fossem logo embora e essa foi a única coisa que deu certo no dia. Foram explorar a bibliotecária na sala ao lado e, quando passaram por mim para irem embora, disseram "xau, pessoa". PESSOA! PES-SOA! Meu irmão, eu tive vontade de pegar aquele cara pelo cabelo escovado dele e meter no chão até ele dizer meu nome de trás pra frente e de frente pra trás. Mas eu não fiz isso. Eu disse "xau..."
~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~
Diário de um detento
14 de maio de 2007
Aqui estou, mais um dia. Sob o olhar sanguinário do vigia. Seis da manhã: o despertador sacode meu cérebro. Acordo idiota e um filme de terror sobre o que terei de fazer durante o dia se passa rapidamente pela minha cabeça e a angústia me domina: é segunda-feira.
No ônibus, uma senhora que devia estar bêbada se desequilibra com o freio dele e vem desgovernada em minha direção. Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK. A mulher parecia um pirocóptero. Prevendo a tragédia, eu cedo meu lugar a ela: "venha, sente aqui logo antes que a senhora mate alguém". Mas, antes que eu pudesse me levantar, ela senta nos meus pulmões. Ótimo! Metralhadora alemã ou de Israel. Estraçalha ladrão que nem papel.
Depois eu consegui um lugar na janela ao lado de uma outra velhinha que parecia um passarinho. Essa usava boné de palha e tênis. Eu não gosto dessas velhinhas de tênis, elas são tão elétricas e ágeis e saudáveis! Isso é contra as leis da natureza.
Essa, no caso, parecia ter DDA, não sentou a bunda um só momento na cadeira, e, quanto mais o ônibus enchia, mais ela se aproximava de mim. Na muralha, em pé, mais um cidadão José. Servindo o Estado, um PM bom. Olhava ameaçadoramente e chegava mais perto, olhava e chegava mais perto.
O detalhe é que a velha estava pregando de suor (isso explicava o tênis) e teimava em se encostar em mim. Quando vi, eu já tava pendurada pra fora do ônibus e velha se chegando. Sinceramente, eu não sei como agir com esse povo. Como é que um ser de 70 anos e 23kg me pressiona dessa forma! Vários tentaram fugir, eu também quero. Mas de um a cem, a minha chance é zero.
Finalmente cheguei na universidade. Apesar da minha moral em baixa, eu estava cantando e andando alegremente, parecia uma princesa de filme da Disney na floresta. De repente, eu não sei como, onde e nem porquê, eu tropeço violentamente em algo e passo uns 20 min tentando me equilibrar novamente.
Quando fui ver, eu simplesmente tinha tropeçado em um fio que estava pregado à parede! Sim, eu tropecei em algo que estava numa parede. O alcance das minhas pernas é realmente fantástico. O fio machucou meu pé, abriu uma ferida, parecia as chagas de Cristo. Será que Deus ouviu minha oração? Será que o juiz aceitou a apelação? Com essa onda de canonizações que anda rolando pelo Brasil... Me senti iluminada. Ah, caiu uns cupins em mim também, cada vez que eu sacudia o cabelo caia uns cinco no meu colo.
Foi assim, com o pulmão danificado, melada de suor de passarinho, com uma família de cupim no meu cabelo e o pé semi-aberto por causa de um tropeção, que começo minha semana. Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
14 de maio de 2007,
Diário de um detento
~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~
Sim, sim, pretendo atualizar algum dia.
Mas por enquanto a vida acadêmica me consome.
Um abraço aos esperançosos.
~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~~~º~~